Adriana Luz

Para sempre na areia...

Textos


Sobre amigos e amizades

Pensava eu naquele dia: estou sozinha. Não tenho amigos. Não tenho ninguém. E não sabia se atravessava a rua, se voltava pra casa, se ia para a esquerda ou para a direita. Estava eu em frente a um hospital. Muito apreensiva, sem saber o que viria pela frente, assim que subisse as escadas para me encontrar com uma pessoa que lá estava internada.

Meu celular tocou. Demorei a atender, tamanha bagunça em minha mente e em minha bolsa enorme, cheia de coisas (coisas estas que, achava eu, imprescindíveis, para minha sobrevivência ali onde eu me encontrava).

Atendi. A voz do outro lado : “Talvez você não fique bem depois desses dias, mas olha, minha casa está à sua disposição. Me ligue, assim que sair daí”.

Pensava eu, outro dia, no mesmo hospital, mas numa Capela. O local completamente vazio e em silêncio. Só Deus, eu, meus pensamentos e meu desespero. Uma mão tocou meu ombro. Assustei-me. Olhei para o lado e caí em prantos. A pessoa, ternamente, olhava-me nos olhos. “Eu entrei aqui na capela, para orar, e vi uma moça com os cabelos trançados e pensei: é a Adriana. Então, vim aqui lhe entregar isto”.

E me deu um terço que, segundo ela, carregava há anos em sua bolsa e sempre o utilizava em suas orações diárias. Depois me abraçou, num abraço infinito... E eu perguntei o que ela fazia ali, naquele hospital. Ela sorriu, limpou meu rosto e disse: “acho que porque eu precisava encontrar você e lhe dar isso (o terço)”.

Tempos depois fui saber que essa pessoa estava no hospital há vários meses em tratamento de uma doença tão séria quanto a da pessoa pela qual eu orava ali na capela.

Na mesma época, conheci algumas pessoas de Recife. Primeiro, a mãe de um deles. Depois, filho, nora, neta... Os problemas de todos, parecidos com os meus, naquela fase. E a despeito de seus problemas, vieram à minha casa, em meu socorro, e a partir dali, tornamo-nos amigos por toda a eternidade.

Numas vezes, os vizinhos. “E aí, Adriana, está tudo bem? Venha tomar um café comigo”. “Se precisar, é só tocar a campainha”... Mas em muitas ocasiões, minha campainha era que tocava: “Adri, faz dias que não lhe vejo, comprei uma lembrancinha pra você e outra pra sua princesa”...“Querida, você gosta de quiabada? Trouxe pra você e pra sua pequena Dora”... “ Menina, que filhos maravilhosos você tem, você é muito abençoada”... “Dri, vai ter caruru lá em baixo, no salão de festas, você vai, viu? Venho te buscar”...

Uma vez, um funcionário do prédio onde eu morava, meio gaguejante: “Dona Adriana, em minha igreja, estamos fazendo a campanha das rosas. É pra gente entregar uma rosa, para quem o nosso coração achar que esteja precisando de flores na vida. Se a senhora me permite, eu queria lhe dar essa rosa, em nome de Jesus...”...

E tantas vezes, outros amigos:

“ Adriana, venha com seu irmão passar o dia conosco”.
“ Venha almoçar em nossa casa, e traga a pequena Isa...
“ Vamos tomar um lanche no shopping?
“ Vamos dar uma volta?
" Vamos passar o dia na praia? Eu passo aí e pego vocês."
“ Quer que eu a ajude com Isadora? Deixa que eu cuido dela hoje!!”...
“ Dri, nunca se esqueça de que somos amigas para sempre, ok?”
" Estou orando por você"...

E em outras, pediatras, mais do que médicos: Vou cuidar de Isadora. De hoje em diante, eu ajudo a tomar conta dela. Quero que ela seja minha paciente.

E colegas de trabalho...“Drica, conte comigo”.... “Adri, fique tranquila, estamos aqui...”

E família! Filhos (A gente te ama, mãe...). Mãe (tá precisando de mim, Dri?). Irmão (Tô indo aí)... Tios (Dri... te amo). E primos. Sim, primos que estavam ali, pra rirmos juntos, comemorarmos juntos, ouvirmos uns aos outros.

E, enfim, eu vejo em cada uma dessas ações e tantas outras em minha vida, desde que o Criador resolveu me colocar nesta terra, a presença do Próprio (Deus-Criador)...

Maneiras que Ele ‘arrumou’ para dizer: “Adriana, Adriana, você não pode fazer tudo sozinha. Entenda. Não a coloquei aí onde você está e até onde você chegou, para que você ache que seja a dona do mundo, do seu mundo... E possa resolver tudo por sua conta e do seu jeito. Porque, MINHA FILHA, você NÃO é dona do mundo. Como NINGUÉM é. Você, Adriana, simplesmente é UMA das partes do mundo, assim como todos os caminhantes que aí estão. Portanto, olhe mais para os lados, aceite ser parte, e veja quanta gente se dispôs e se dispõe a estar COM e PARA você. Você pode chamá-los todos de amigos, se quiser. Mas mais que chamá-los dessa maneira, que tal agradecer?”

Pois é... E então me vem alguns lampejos de outras fases de minha vida. De amigas de infância e adolescência. De famílias das quais fiz parte. De pessoas que conviveram comigo e que me ensinaram profissionalmente, pessoalmente, sentimentalmente e espiritualmente...

E admito: se até Cristo precisou de ao menos doze amigos para caminhar ao seu lado e ajudá-lo em sua Missão... imagino-me a mim mesma...

E admito de novo. Realmente... o dia de hoje... em minha vida, não é de homenagens. Entretanto, e primordialmente, de agradecimentos.

Aos doze, duzentos, e milhares de  amigos,  pessoas que fazem ou fizeram parte da minha vida.

Porque eu, de verdade, nunca tive amigos somente. Amizade é também reciprocidade. E diversas vezes, eu não soube ser recíproca como deveria - isso também aprendi a admitir. Portanto, agradeço mais ainda.

Em minha vida eu sempre tive, e ainda tenho, mais que amigos. Eu tenho companheiros de travessia. E, vários, muito melhores e maiores do que o meu ser em constante busca de evolução.

Mas eu estou aprendendo e apreendendo...
E ainda chego lá!

(Agradecer, eis a maior das missões em muitos momentos)...

Obrigada, Senhor, pela oportunidade de hoje.

Feliz dia a todos nós. Amém.

Adriana Luz – em 20 de julho de 2014.


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Adriana Luz
Enviado por Adriana Luz em 20/07/2014
Alterado em 20/07/2014
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