Adriana Luz

Para sempre na areia...

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Hoje é dia 23 de março de 2014. Não sei quem faz aniversário. Não sei quem está lendo isso aqui. Não sei o que as pessoas estão fazendo. Não sei nem o que meus filhos estão fazendo. Não sei o que sente uma das pessoas que amo demais, e que não vive mais comigo, e que carrega uma doença, e que não sei ainda quando tudo se resolverá, e que não sei se ele vai se curar, e que não sei quanto tempo permanecerá como está...

Nada sei... de nada... nem de ninguém. A única coisa que sei é que aqui estou, rodeada de porta-retratos, papéis, anotações, uma xícara de café, e acompanhada de minha filha... e que existe um domingo pela frente...

Semana passada estava eu em outro lugar, rodeada de outros itens, ocupações, e acompanhada de minha outra filha.

Na semana passada, eu não sabia como seria essa minha semana, como nunca sabemos nada de nada. Somente pensamos que sabemos, e por pensar que sabemos, fazemos planos para aquilo que sabemos que não sabemos se irá acontecer de fato. E foi uma semana que começou com o falecimento de um tio muito querido, que há muito eu não via, e agora, também não sei quando verei de novo... E, incrivelmente, eu não consegui escrever uma palavra a respeito. Expressar nada, como ainda não consigo. É muito mais fácil escrevermos para quem está aqui, na esperança de que a pessoa continue conosco, do que para alguém que está ali... ali... pra nós que cremos em Deus, ali, com Ele (Deus), sendo recebido de braços abertos, e sendo preparado para receber todos nós que um dia passamos pela sua vida, também, ali... quando formos para o mesmo lugar (ao lado de Deus).

E a semana foi pesada, estranha, com alguns acontecimentos estranhos, pessoas esquisitas, dias esquisitos... e eu mais esquisita do que sempre... Tudo muito esquisito.

E em dias esquisitos, a gente fica sem saber como agir, o que pensar, o que fazer, dá uma moleza, um sono mais do que o normal e constante, uma vontade de fazer alguma coisa que não se sabe como e nem por onde começar. E então, não fazemos nada. Ou fazemos (porque temos de cumprir os compromissos, mas fazemos no automático, sem nem sentir ou perceber o que estamos fazendo)... Arrastamo-nos pelas manhãs, pelas tardes, perambulamos pela noite... E nada nos faz sentido, ou nos resta... talvez resta-nos orar... Chorar... rezar de novo... Chorar mais ainda. E chorar por quê? Não se sabe. Por isso, rezamos de novo, de novo e de novo...
Deus deve saber o que está acontecendo. Eu creio. Então, se somente Ele sabe, a única coisa que nos resta mesmo é orar e pedir a Ele que nos ajude a entender, ou a aceitar aquilo que nem nós sabemos o que é pra entender e aceitar. Mas oramos. E esperamos.

E ontem, dia 22 de março de 2014, eu me encontrei com uma das pessoas que amo demais, e que não vive mais comigo, e que carrega uma doença, e que não sei ainda quando tudo se resolverá, e que não sei se ele vai se curar, e que não sei quanto tempo permanecerá como está... E ele, quando me viu, olhou-me... Olhou-me, como me olhava antes. E em seguida, sorriu. Sorriu-me um sorriso tentando ser igual ao de sempre. O sorriso não é mais o mesmo. Ele tem dificuldades até para sorrir. Mas ele sorriu uma vez (quando me viu), sorriu pela segunda vez (quando viu meu irmão), sorriu pela terceira vez (quando viu minha mãe). E ficou com aquela marca de sorriso no rosto, enquanto lá estive. Se ele permanecia ainda junto com o sorriso não sei, mas a marca no rosto ficou até eu ir embora, quando eu orei por ele, soltei suas mãos e disse tchau.

Eu também não sei quando o verei de novo. Está cada vez mais difícil vê-lo por aqui, assim... Se é que ele ainda está aqui, de fato. Não sei de nada... Só sei que minha semana começou de forma triste, seguiu-se esquisita e terminou com um sorriso... Foi apenas um sorriso. E foi apenas uma semana. Pra muita gente, nada de mais. Pra mim, não sei ainda, mas eu precisava registrar. E sigamos, que existe um domingo pela frente. E uma vida, a ser vivida, compromissos a serem cumpridos... E nessa vida, ou compromissos, que alguma oração ou sorriso nos embale e nos traga forças, esperanças, vontade de viver e de realizar a missão que cada um tem aqui nesta terra.

Ao meu tio querido, que está ali... meu beijo em forma de oração. Aos demais que estão aqui, o convite de seguirmos juntos, e sempre em frente, sem desistir, ainda que não entendamos de nada... Amém.

Adriana Luz

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Adriana Luz
Enviado por Adriana Luz em 23/03/2014
Alterado em 23/03/2014
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